No rescaldo da tomada de posse do novo Presidente de Angola, a UNITA reuniu, na IV Reunião Ordinária do Comité Permanente, as acusações não se fizeram esperar mas é a "materialização" da saída de Isaías Samakuva, da liderança da UNITA, que sobressai:

"Afirmei aos angolanos antes e durante a campanha eleitoral que depois das eleições deixaria o cargo de Presidente da UNITA para servir o partido numa posição diferente. Mantenho e reafirmo esta decisão. Terminada a fase eleitoral e encontrando-nos no dealbar do novo ciclo político, acho ter chegado o momento para desencadearmos o processo conducente à materialização desta decisão. Esta reunião deverá, pois, proceder à definição da data em que a Comissão Política do Partido vai reunir para que, além de analisar o relatório da Direcção da Campanha Eleitoral, possa também, nos termos dos Estatutos, ser ouvida quanto à realização de um Congresso Extraordinário para a eleição do novo Presidente do Partido".

No seu discurso, Isaías Samakuva, líder do partido desde a morte de Jonas Savimbi, mostrou-se, de alguma forma, conformado, com facto de não conseguir levar a diante as acusações de fraude durante as últimas Presidenciais, e afirmou que a UNITA está pronta para continuar a lutar:

Estão criadas as condições objectivas para que o próximo governo inclua as aspirações de todos na sua agenda. Dialogue com todos, potencie as sinergias e explore de forma positiva todas as oportunidades de convergência com a sociedade civil e todas as outras forças vivas da Nação. O país precisa de sinais concretos de afirmação dos seus órgãos de soberania, designadamente o Presidente da República, a Assembleia Nacional e os Tribunais".

Quanto ao futuro, o líder da formação, promete luta:

"Os membros do Grupo Parlamentar da UNITA vão ao Parlamento para demonstrar, permanentemente, que estão lá porque esse é o palco mais indicado para combater os males a que atrás me referi. Deverão demonstrar que estão aí para combater as violações dos direitos humanos, a má governação, o desemprego, os assaltos aos cofres do Estado e o nepotismo".

Num ponto Isaías Samakuva e João Lourenço parecem estar de acordo. Ontem, no seu discurso o novo Presidente falava no combate à corrupção, hoje o responsável do partido do Galo Negro dizia:

"Outra prioridade é o combate efectivo e eficaz ao fenómeno da corrupção por desvio de fundos públicos. Quando, por força dos desvios de fundos públicos, não se concretizam importantes investimentos na saúde, na educação ou na segurança alimentar e nutricional das crianças, e por causa disso, aumentam os níveis de pobreza e a instabilidade das nações, corrói-se a fibra moral das sociedades, alimenta-se o narcotráfico e outros crimes transnacionais, surgem Estados falhados e multiplicam-se conflitos sociais violentos, o que nos pode colocar, certamente, perante uma ameaça à segurança e à estabilidade".

Conformado mas Samakuva mantém as suas convicções. No seu discurso, na reunião ordinária do partido, afirmou que a vontade dos angolanos foi traída na última votação:

"Foi através destas eleições que o sentimento geral de que a vontade soberana dos angolanos foi traída por quem detém temporariamente o poder do Estado se transformou numa convicção nacional.

Também pela primeira vez, os angolanos, insólitos, tiveram o testemunho apresentado pelos próprios comissários eleitorais e pelos auditores independentes, segundo o qual, não houve apuramento provincial dos resultados eleitorais. Todos perceberam, naturalmente que a declaração final do Tribunal Constitucional emitida para validar os resultados eleitorais é um expediente político-administrativo que não confere legitimidade política a quem o povo não a conferiu". 

Para o líder da principal formação da oposição angolana, que contesta, desde o primeiro momento, os resultados da votação, o escrutínio terminou mas tudo ficará na mesma:

"Os problemas continuam e vão continuar; as violações dos direitos humanos continuam e vão continuar; a corrupção continua e vai continuar; a intolerância continua e vai continuar; a exclusão continua e vai continuar. O país continua e vai continuar com uma profunda crise de valores, um Estado predador, uma Constituição atípica, uma economia prostituída, uma dívida pública insustentável e um sistema financeiro opaco, sem credibilidade".

As acusações ao MPLA, partido no poder no país desde a independência, continuaram e as divergências de ponto de vista, históricas, entre os dois partidos, e que levaram a uma Guerra Civil que durou quase trinta anos, continuam:

"O grande obstáculo que impede a construção da Nação e a concretização da justiça e da paz social é a captura das instituições do Estado pelo Partido-estado. (...) Por isso, um dos grandes desafios para o nosso Partido na legislatura que deverá iniciar em breve, é a despartidarização do Estado. Este desiderato implica, naturalmente, uma reforma profunda do Estado e da economia e o resgate da cidadania".

Samakuva deixa um aviso:

"Os angolanos conferiram à UNITA novas responsabilidades muito mais abrangentes do que os números eleitorais parecem transmitir. A UNITA tornou-se um património nacional, depositário fiel das aspirações de liberdade e dignidade dos angolanos. Vamos por isso assumir as nossas responsabilidades e continuar a servir o povo, ao lado do povo, para o benefício do povo".

A UNITA foi a segunda força mais votada nas últimas eleições presidenciais.

 

(Foto: @AdalbertoCosta.J)

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