O Jornal da Lusofonia parte à procura dos rostos de expressão portuguesa espalhados pelo globo. Desta vez trata-se de um português. Paulo Duarte, um verdadeiro cidadão do mundo, que "trocou" Portugal pelo Japão.

Cheira a pão-de-ló na “Castella do Paullo”, o bolo que os portugueses levaram para o Japão, há quase quinhentos anos, e que se tornou um dos ex-libris de Nagasaki. Paulo Duarte, o dono da pequena pastelaria, localizada nos arredores de Quioto, fabrica-o com orgulho e sabedoria.
As vitrinas da casa de chá - onde se servem também refeições caseiras - estão repletas de iguarias da doçaria portuguesa. Doces de fazer crescer a água na boca num ambiente onde o Fado, e a decoração do espaço, nos remetem também para Portugal. As empregadas são, naturalmente, japonesas e falar português só mesmo com o Paulo ou com a Tomoko, a mulher do pasteleiro, e fiel promotora da cultura portuguesa no Japão.

De Lisboa para a Quioto
Paulo Duarte é o homem por detrás da “Castella do Paullo”, casa de chá que abriu portas, em Lisboa, em 1996, mas que emigrou para Quioto, em 2015. Dois anos antes fechava portas na capital portuguesa:
“Nós fechámos em 2013, e quando fechámos foi uma guerra porque os clientes ficaram mais do que zangados, diziam: «e agora onde é que nós vamos?!» Houve pessoas, inclusive, que como 2013 foi ano de crise diziam: «a Castella do Paulo faliu», mas não foi o caso, até porque 2013 foi o nosso melhor ano de vendas”.
O melhor ano de vendas, mas Paulo Duarte é um homem que gosta de desafios:
“Aquilo já estava em velocidade de cruzeiro, por assim dizer… às vezes parece mal dizer (...) mas aquilo funcionava, praticamente, sozinho, e então perdeu um bocado a graça, já não era um desafio”.
Partiu então rumo a novos desafios. Mas porquê o Japão?
“Para já, porque a minha mulher é japonesa. Eu estive cá em 92/93, vivi cá dois anos, e achei que se tivesse de viver num país, e eu já viajei por muitos, só havia dois que me atraiam, Paris, não França em geral, mas Paris, e o Japão. A minha área é a pastelaria e Paris é a Meca da pastelaria, é ali que começam as inovações quase todas, e o Japão tem uma coisa interessante que é, nos anos 60/70 os japoneses iam para Paris para se formar em pastelaria, hoje os franceses vêm para o Japão formar-se em pastelaria francesa. E tem uma coisa melhor que é, aqui nós temos pastelaria do mundo inteiro. Não tínhamos pastelaria portuguesa mas agora também já temos. (…) E é desafiante trabalhar aqui, é engraçado”.
No Japão trabalhou em pastelaria francesa. Tinha já percorrido “meio mundo” pelo que deixar, para trás, Portugal, foi algo que fez com leveza, sem pesos na consciência. Paulo Duarte é o verdadeiro cidadão do mundo:
“Não me custou nada. Não é que não goste de Portugal… Sou patriota, mas não sou nacionalista. Vivo bem em qualquer sítio (...).”

Uma paixão que nasceria por acaso
Paulo Duarte nasceu na margem sul do Tejo, no Seixal, no seio de uma família luso-francesa. Pai algarvio, que foi “para Lisboa trabalhar”, a mãe era da margem sul, mas os avós eram franceses:
“Fugiram da guerra para o Seixal, fixaram-se lá e a minha mãe nasceu lá e o resto da família também”.
Mas não foram as raízes francesas que lhe “abriram o apetite” para a pastelaria, esta arte surgiu na sua vida por acaso:
“Eu comecei a trabalhar em pastelaria tinha 12 anos. Estava a estudar na altura, como é óbvio, (ri). Mas nas férias de verão um vizinho dos meus pais perguntou-me se não queria ir ajudar, ganhava uns trocos e tal… «está bem», pensei, «são as férias de verão, são três meses» e fui. Começava às dez da noite e acabava às sete da manhã”.
Talvez lhe estivesse nos genes, já que as férias do verão terminaram, mas o Paulo - o homem que já na altura devia ser decidido, pragmático, que sabe o que quer e luta para alcançar os seus objetivos - nunca mais deixou a pastelaria:
“Quando acabaram as férias de verão, o pessoal de lá disse-me: «podias vir aí, nem que fosse fazer umas horas, podias vir mais tarde, ou saías mais cedo…» e eu respondi-lhes: «não, eu venho no horário normal".
Entrava às dez da noite, saía às sete da manhã, ia a casa tomava um duche, pegava na mala e ia para a escola, que começava às oito e meia. Depois saía da escola às duas e meia, mais ou menos, ia para casa, dormia um bocado, porque às dez da noite ia trabalhar outra vez. Fiz isto durante dois anos e meio”.
Uma experiência enriquecedora e deliciosamente apetecível, para a criança que, então, comia um bolo por semana:
“Na altura éramos cinco irmãos e eu lembro-me que, antes de começar a trabalhar em pastelaria, os meus pais compravam-me um bolo ao sábado. Aquilo era um dia de festa. (...) Íamos à praça e, quando acabávamos as compras, tomávamos o pequeno-almoço na pastelaria, era o dia em que se comia um bolo. Aos 12 anos, poderes entrar numa pastelaria e comer à vontade, era o paraíso. Então fiquei”.
Mas trabalhar e estudar, ao mesmo tempo, àquele ritmo, era impossível. O sempre determinado e pragmático Paulo não teve dúvidas deixou a escola:
“Gostava de ter estudado mais mas não estou, de todo, arrependido. Entretanto tive a oportunidade de viajar muito. Aprendi coisas que não aprendia se tivesse andado na escola”.

Viver “sofregamente” mas com paixão
Paulo Duarte orgulha-se do seu percurso, das escolhas que fez, do que alcançou mas as circunstâncias da vida foram-lhe, também, propícias:
“Tive a sorte de não ter ido à tropa. Acho que se, na altura, tivesse tido que cumprir o serviço militar isso mudava tudo. Acho que alterava até a minha maneira de pensar, porque eu não sou muito de seguir disciplinas muito rígidas”.
Foram as lições da vida e algumas decisões que tomou que o fizeram crescer, ser quem é hoje, sem remorsos e assumindo, sempre, as suas escolhas, espirituoso, e com um pouco de ironia à mistura:
“Comecei a trabalhar aos doze, casei com 18, o meu filho nasceu tinha 20, abri a primeira empresa aos 24, portanto acho que vou morrer cedo (ri). Comecei tudo muito cedo mas nunca pedi sequer opiniões aos meus pais. Aquela coisa de pedir um conselho não é para mim. Acho que quando as pessoas pedem conselho só querem confirmar aquilo que já decidiram, estão é à espera que as pessoas digam aquilo que querem ouvir. Se não disserem, vão pedir conselho a outro. Isso é uma perda de tempo. Mais vale decidir sozinho e, assim, não ter de culpar ninguém. Nunca pedi conselhos a ninguém, nem para desistir dos estudos”.
Quando decidiu casar, anos mais tarde, fê-lo com a mesma determinação e sem pedir conselhos a ninguém. Casou. Dois anos depois abraçava um novo desafio com Tomoko, a sua mulher, o de ser pai:
“Quando o meu filho nasceu eu tinha 20 anos e acho que uma grande parte do relativo sucesso que fui tendo foi por ter sido pai muito cedo, ou seja, aos 20 anos é uma enorme responsabilidade. Se só tivesse de pensar em mim diria “se não comer hoje como amanhã”, agora, eu tinha a responsabilidade pelo futuro dele. Por isso penso que é por as pessoas não terem uma vida estável que deviam ter filhos. Nem que fosse só um. Porque se não tiverem até evitam fazer sacrifícios - estar a sacrificar-me para quê?”

De empregado a patrão: um tiro no escuro
Este homem, sem papas na língua deu um “tiro no escuro”, em termos empresariais, aos 24 anos, quando abriu a primeira empresa, na área da pastelaria. Uma casa de fabrico, mas sem venda direta ao público, localizada também na margem sul:
“Quando abri a primeira casa (…) tinha no banco a módica quantia, e ainda era em escudos, de cinco mil contos. Na altura era dinheiro, dava para comprar um apartamento, por exemplo, mas não era uma fortuna, e investi tudo. (…) As pessoas achavam que eu era completamente maluco. Diziam “podias ter esse dinheiro aí de parte (…)”, mas o dinheiro parado (...) não tem piada”.

De Portugal para o mundo
Para Paulo Duarte, o Japão é uma escala para outra qualquer paragem do mundo porque a vida é feita de desafios:
“Acho que quando esta casa tiver pernas para andar sozinha, também começo a pensar noutra coisa, (ri) porque não me sinto à vontade numa coisa muito calma, que funcione às mil maravilhas”.
E como o futuro está já ali ao lado, a cabeça deste pasteleiro fervilha com novos projetos:
"Isto é o princípio de um projeto de abrir cinco casas no Japão. Todas ligadas à hotelaria, mas todas diferentes. A próxima já não será uma pastelaria.
Daqui a 10 anos a ideia inicial é abrir, em Lisboa, uma escola de pastelaria tradicional japonesa, que não existe na Europa.
O sushi e o sashimi estão em grande, mas o handicap dos restaurantes todos, na Europa, são as sobremesas. Em Paris há duas casas que importam diretamente do Japão mas são caríssimas, mesmo para o nível de vida dos franceses (…).
A ideia é abrir, em Lisboa, uma escola virada para profissionais da hotelaria, pode ser que mais tarde se proporcione fazer outra coisa, e levar daqui alguns bons profissionais de doçaria tradicional japonesa para dar curso, mas isso é ainda uma coisa..."
Uma coisa a ver, no futuro. Quatrocentos e setenta e quatro anos depois de Portugal ter pisado, pela primeira, território nipónico, e de ter deixado tantas marcas – na língua japonesa, na culinária, etc. – são pessoas como o Paulo e a Tomoko que continuam a escrever a história, que liga os dois países.
(Fotos: @JornaldaLusofonia)







Comentários
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